terça-feira, 16 de maio de 2006

[.............] esse é o meu nome


Não me recordo do nome. É muçulmano de religião – como são muitos dos guineenses – e sendo o seu nome, expressão desse propósito confessional, não é fácil que ele nos fique com exactidão na memória. De qualquer forma, não ter nome (porque não me lembro dele) serve os propósitos que aqui se procuram relatar. Tem sido de resto esse o esforço prosseguido pelo Estado Português nestes últimos 30 anos: não saber nomes, não nomear determinados indivíduos. De preferência, esquece-los. Por isso o homem de meia-idade que era filmado pelas câmaras da rtp-n no meio do mato e do capim guineense, esmagando cajus com as ferramentas toscas da sobrevivência, não tinha nenhuma vontade de falar. Assim, e para os presentes efeitos, ele continuará sem nome. Diremos que simplesmente se chama [.............].
[.............] tem uma medalha da cruz de guerra de primeira classe atribuída pelo Estado Português, por actos e feitos de bravura praticados em campanha.
[.............] integrou o corpo de comandos durante três comissões, na luta contra o PAIGC. Por isso, ele jurou fidelidade ao exército português e logo, à sua Pátria.
Hoje, [.............] não sabe se verdadeiramente era essa a sua pátria, não sabe se fez bem em sentir-se português.
Era português no mato e no capim, bebendo água podre. Era português disposto ao último sacrifício, sobrevivendo entretanto. Era português como os outros pretos e os outros brancos que na Guiné esperavam viver um presente para lá da guerra. Eram todos iguais no medo, todos iguais na vontade de resistir. Eram todos iguais porque a morte não quer saber dessas coisas que o homem inventa: na sua hora, ela não escolhe a cor da pele, não quer saber se é o preto ou é o branco. É um deles, aquele que tem de ser.
Depois da guerra [.............] apresentou-se nos quartéis da Guiné independente como militar que era, para reintegração no respectivo exército, porque assim ficara acordado entre o agora Estado Guineense e o Estado Português. Os militares de origem guineense que haviam combatido pelo exército Português como portugueses que eram, poderiam manter a respectiva nacionalidade, ainda que integrados no exército guineense. [.............] era português como muitos outros que se apresentaram. Quando o PAIGC chegou, disse-lhes que teriam 15 minutos para desaparecer senão seriam ali fuzilados, por traição. [.............] conseguir fugir. Outros caíram logo ali. Apanhado, [.............] viveu como um animal fechado num armazém com cerca de 500 outros companheiros durante 1 ano. Não havia latrinas, não havia nada. Alguns sufocavam e morriam. Outros eram sumariamente fuzilados sem julgamento. Havia fuzilamentos todas as semanas. Eram poucos de cada vez porque aqueles que ficavam a aguardar essa sorte, não tinham forças para abrir muitas valas onde depois se enterrariam os companheiros que eram mortos. [.............] mostra para as câmaras a terra revolvida onde o esquecimentotambém se enterrou .
Quando chegou o seu dia, a sua vez de ser também fuzilado, [.............] saltou da carrinha que o transportava e conseguiu fugir para o mato de mãos algemadas. Ali passou 2 anos até que um dia regressou e não o aborreceram mais. [.............] achava, tinha a esperança de que ainda poderia continuar a ser português.
Mas Portugal esqueceu-se.
Agora, havia coisas mais importantes a alcançar: havia o internacionalismo proletário, havia um caminho de liberdade e de socialismo e guerra fora uma coisa dos fascistas, não poderia nunca ter sido uma coisa da pátria ou dos portugueses, não fora uma coisa de homens e do seu sacrifício, fora uma coisa de suínos sem dignidade. Os verdadeiros portugueses, esses nem lá estiveram, estavam com o 25 de Abril....
[.............] já nem sabe onde pára a Cruz de Guerra. Tem apenas os papéis que atestam a sua condecoração e ele, provavelmente, nem quer bem lembrar-se do dia em que oficiais a espetavam no camuflado.
[.............] é um homem profundamente triste, esmagando cajus.
Há mais de um ano que espera a emissão de um visto para pisar pela primeira vez terra portuguesa. Não bastaram 30 anos da pátria a olhar para o lado, perguntando-lhe pelo nome... Não. [.............] teria que esperar por mais um papel. E disto eu sabendo (reportagem rtp – n domingo, dia 14 de Maio) também fico com muito pouca a vontade para que digam o meu nome, em português: [.............].

Monumentos


A 16 de Fevereiro escrevi: "Serão os Shopings de hoje os Monumentos de amanhã?"

Hoje tenho dúvidas.

Serão os Monumentos de hoje os Shopings de amanhã?

DIA-A-DIA


“NÃO ESTAMOS A VIVER.”
(Ponte da Arrábida – Porto)

“TANTA PRESSA PARA QUÊ?”
(Rua Sacadura Cabral – Porto)

“A NOITE ESTÁ PRATEADA PELA LUA”
(Rua Carlos Alberto – Porto)

“A MANHÃ TEM OURO NA BOCA!”
(Rua das Oliveiras – Porto)

“RELAX GIVE LIFE!!!”
(Rua do Almada – Porto)

HÁBITOS PRIMAVERIS

... começo a parar em frente das montras das farmácias; nas filas de trânsito, espero ansiosamente pela passagem do autocarro que faz o percurso 303!

O calor tem coisas que não se explicam!

segunda-feira, 15 de maio de 2006

NÓS POR CÁ

(Rua Comendador Sá Couto – SMF)

Também escrevemos.

sexta-feira, 12 de maio de 2006

O VÍDEO, O MUNDIAL, TU, A BOLA, O CRAQUE...



* a dúvida que me assola, é saber como é que o puto que aparece descalço conseguiu filmar e enviar o filme. Só não há dinheiro para o sapatos?!

quinta-feira, 11 de maio de 2006

lloyd cole na baixa da banheira


Francamente! Só faltava dizer que depois ainda faria uma perninha a Alhos Vedros, à Bobadela ou na Vialonga, com paragem para uma cervejinha na Porcalhota (hoje amadora) e desse ainda a cara pela acção promocional "viver em arruda" (dos vinhos). Dear Mr. Cole, where are the rattlesnakes?

PETER KRUDER feat. RAINER TRUBY



quarta-feira, 10 de maio de 2006

MÁQUINAS DIGITAIS

Abaixo as máquinas fotográficas digitais, que nos aumentam a realidade para dimensões para além do olho humano, com consequências muito gravosas à nossa auto-estima. Desde que me começaram a enviar fotografias digitalizadas, para além de ter descoberto que sou feio, muitas mulheres descobriram que têm buço, homens descortinaram pêlos da barba por cortar, passando pelo pequeno resto de alface ao dependuro no primeiro molar. Enfim, completamente desnecessário!

Fica aqui o aviso:

Passem a tirar fotografias à paisagem, ou então diminuam a resolução dessa porcaria…

terça-feira, 9 de maio de 2006

segunda-feira, 8 de maio de 2006

MAIS CINCO

“VIVE A NOITE COMO SE FOSSE A ÚLTIMA…”
(Rua de Aníbal Cunha – Porto)

“…CADA DIA COMO SE FOSSE O PRIMEIRO”
(Rua da Boavista - Porto)

“A TUA ESSÊNCIA, ÁGUA E SONHO”
(Rua do Breyner – Porto)

“NÃO SEPARES O CORPO DA PAIXÃO”
(Rua Aníbal Cunha – Porto)

“O PRÓXIMO PASSO É TEU...”
(Rua do Almada - Porto)

sexta-feira, 5 de maio de 2006

purevolume.com

Sendo uma das maiores base de ficheiros musicais dedicadas a projectos independentes e em estreita colaboração com editoras que assumem o mesmo carácter, alternativo, ou alojando as demos dos próprios músicos ou bandas, foram as seguintes, as bandas de Santa Maria da Feira que lá se encontrando alojadas e que musicalmente pareceram as mais interessantes, não deixando de ser relevante o facto de haver nomes comuns entre os projectos (allen é um homem só e duas bandas simultaneamente?):

“always a lie” *
http://comrade.site.vu/
Filipe T. Allen
Santa Maria da Feira.

“all I want is you” *
http://www.allen.pt.vu/
André Anjos
Santa Maria da Feira.

*clicar no nome da canção na playlist do lado direito, ou abrir nova janela com a playlist.

o que será feito de...


'O Bicho'

quinta-feira, 4 de maio de 2006

the ladies night collection


Fritzthegermandog apresenta
The ladies night collection.

Uma colecção de temas que reúne êxitos de hoje e de ontem que a farão divertir-se com as suas amigas, e que lhe garantem uma noite de sucesso na sua casa, na discoteca ou em qualquer bar em que você seja o DJ de serviço, independentemente de aí surgir como solteira, encalhada ou divorciada e se encontre a curtir ou a carpir mágoas. The ladies night collection será a sofisticação e o bom gosto que farão de si a estrela da noite. Incluindo temas como:

1. it´s raining man - the weather sisters;
2. girls just wanna have fun - cindy lauper;
3. do ya think i´m sexy - rod stweart*;
4. i feel like a woman - shania twain;
5. i will survive - gloria gaynor;
6. total eclipse of the heart - bonnie tyler (versão karaoke);
9. what about love - heart;
10. the eye of the tiger - survivor;
11. bed of roses - bon jovi;

Com The Ladies Night Collection, garantimos-lhe total satisfação bem como às suas melhores amigas. Certamente que você não quererá deixar de ser, a estrela da noite.

* embora lamentando o estado de decadência física e discográfica do autor, compositor e interprete que a si mesmo se chama rod stweart, fritzthegermandog gostava de sublinhar que é apreciador de algumas das composições desse mesmo ícone (?) britânico, tendo na presente selecção musical comprovado a resistência e o endurance demonstrado por alguns dos temas daquele autor, como o demonstra o tema escolhido para integrar "the ladies night collection". Obrigado.

fritzthegermandog

quarta-feira, 3 de maio de 2006

WHO'S MAD?



Mastermind

Every pupil in the classroom will answer the same if you ask them
Every mouth shout the message out as one
Every girl weeps like the willow, every boy cries into his pillow
Every tear disappears in the morning sun
You don't need an indie song to figure out what's going on

Tell me that I'm normal, tell me that I'm sane
Tell me that you feel this too
All the dreams that we have had are gonna prove that we're not mad to you

Every nose is a vacuum cleaner in the loved-up London arena
Every eye flies a dollar sign for me
Every tongue will wag if you want it, every lung has a shadow on it
Every heart comes apart at the seams
You don't need a mastermind to read between the long white lines
Tell me that I'm normal, tell me that I'm sane
Tell me that you feel this too
All the dreams that we have had are gonna prove that we're not mad to you

Well we all need reassurance as we play life's game of endurance
Like a nice cup of tea or a cigarette
But don't lean too long on your crutches or you'll fall straight into the clutches
Of those who see free expression as a threat
You don't need a law degree to set your mind and spirit free
So tell me what the hell is normal and who the hell is sane?
And why the hell care anyway?
All the dreams that we have had are gonna prove that we're all mad and that's OK

the tide is high...

Não venhas com histórias, a esta altura já estiveste a confirmar os danos que um Inverno prolongado fez à tua aparência física.
O corpo que esteve absolutamente coberto por roupas desde Outubro já exibe uma colecção simpática de espinhas nas costas, pêlos encravados onde os elásticos das meias fazem pressão, calos das botas e a temida flacidez... coisas que debaixo das vestes invernais não se advinhavam.
“Pois é, eu sabia que devia ter ido para o ginásio em Setembro...” pensas, tristonho, em frente ao espelho.
Rumo à praia, pois, é o grito de ordem... mas convenhamos que o primeiro strip do ano é difícil.... desde logo pela estranheza que o corpo sente ao ser bafejado pelas brisas ainda um pouco frescas da primavera.... mas muito mais porque significa a exibição pública da côr alva dos corpos, côr que concorre ferozmente contra os anúncios das marcas de detergente para a roupa...
Por isso, coragem! Até um escaldão tem melhor aspecto que o OMO...
Despe-te e vai à praia....

a pergunta

Não haverá outro enquadramento para os próximos anos que não passe pelo crescimento económico, com acentuado desemprego. O problema da economia portuguesa é estrutural, prende-se com o patamar de qualificação do seu tecido produtivo – assente numa tipologia de mera transformação de matéria prima, sem valor acrescentado e logo com escassos índices de utilização tecnológica – pelo que a sua alteração (uma necessidade competitiva!) deixará de fora muitos daqueles que não chegaram a adquirir competências para integrar essa outra base na qual se pretende ora assentar o desenvolvimento produtivo de Portugal.
Assim o máximo a que poderemos aspirar é, ou a estagnação/desemprego, ou o pouco desenvolvimento/desemprego.
Sendo o desemprego o factor constante, ele acarretará uma radicalização do discurso político à esquerda, radicalização essa que muito tem vindo a ser capitalizada por Jerónimo de Sousa e que sofrerá de igual modo, uma outra investida pelo BE, que procura proletarizar a imagem (sentando um electricista na AR), agora que a demagogia política protagonizada pela respectiva clique urbana bem vestida e bem pensante, já deu o que tinha a dar (também já não havia paciência!).
A pergunta tem pois a ver com o centro político, o meio ideológico que dominou com mão férrea os 30 anos de democracia que trazemos, de inquestionável e hoje insustentável inspiração social-democrata: que consequências dessa radicalização política decorrem para PS e PSD e para as respectivas expectativas de poder, agora que terreno fértil haverá para CDU e BE e que o desequilíbrio ideológico será indubitavelmente favorável à esquerda (para quando também alguma frescura e novidade ideológica no país, pergunta-se)?
O problema não se coloca tanto para o PS que tem e sempre teve alguma capacidade de adaptação, e chegou mesmo a navegar nalgum do recente radicalismo esquerdista (veja-se o caso de Ferro Rodrigues, que chegou a equacionar uma aliança com o PCP).
Os problemas poderão ser mais significativos para o PSD. A inspiração liberal que ainda diz ostentar – resta saber aonde - obrigaria a uma tentativa de corrigir e reequilibrar politicamente o país recentrando-o à direita. Contudo, todas as tentativa que o PSD levou a cabo no sentido de assumir um discurso ideologicamente mais próximo do que se entende por direita (e isso também apresenta algumas dificuldades!) implicaram não só uma hostilização do CDS, mas sobretudo, a perda de apoio eleitoral ao CENTRO e logo, a perda automática de poder. Por aí, o caminho revelar-se-à sempre difícil para o PSD, pois perderá necessariamente a metade do que tem sido a sua face histórica (traduzida, por exemplo, nos 18% de eleitores de Cavaco Silva que votaram PS em 2005 e que traduz a mais absoluta identidade sociológica e de propósitos entre ambos os partidos).
Apesar de tudo o que se disse poder parecer conjectural, uma coisa resulta manifesta: a radicalização do discurso será cada vez mais acentuada (atentas as razões estruturais indicadas no início) e sê-lo-à em benefício da esquerda, sobretudo da radical, que chega a ver como potencialmente interessantes, modelos de actuação próximos de Hugo Chávez ou de Evo Morales.
Logo há um reequilíbrio ideológico que terá necessariamente de verificar-se, sob pena de o consenso das sociais-democracias , que 30 anos passados trouxe o país à mais absoluta e manifesta falência técnica, persistir pelos próximos 30.
É tempo de inovar ideologicamente e de enterrar os fantasmas do passado!

terça-feira, 2 de maio de 2006

fritzthegermandog, ein ziel


Hallo!! Ich bin Fritz. Meinen DeutsheHund, das Ich auch im dieses blog die name habe, ist nicht im Bild, aber im meinem Manheim Haus, Stadt von Ich geboren bin (meinem alt ist nicht wichtig!). Meinen Eltern sind von Portugal angekommen, und sind im Deutschland für fünfunddreizig Jahre. Sie sind im Santa Maria da Feira geboren und dass ist warum ich über Ihrer kleine stadt so viele weise und kenne, und viel mehr so wissen und kennen wolle.
Ich war im Portugal - meinem Land - für einige mal (normaleweise, einmal jede jahr) und es ist immer traurig dass nach Deutscland Ich angehen musse. Es ist warum bin Ich sehr froh um dieses blog zu schreiben, sehr froh dieses einlade von die feirafranca leute gehabt um die meinung über verschiedenen themen zu anschauen.
Die ersten posten waren über politik und philosophie (dass studiere Ich) und vieleicht können die lätzten literärischen es zu verstanden, oder beide... Ein Begriff wolle ich anschaue: dass als Portugieser habe ich (haben alle!) eine wichtige plätz im die Welt Geschichte, und im die Welt Kultur und Zukunft. Tchüss.

FritzderDeutsherHund [fritzthegermandog].

domingo, 30 de abril de 2006

RUA

quinta-feira, 27 de abril de 2006

portugal o norte e portugal


por Miguel Esteves Cardoso.
Primeiro, as verdades. O Norte é mais Português que Portugal. As minhotas são as raparigas mais bonitas do País. O Minho é a nossa província mais estragada e continua a ser a mais bela. As festas da Nossa Senhora da Agonia são as maiores e mais impressionantes que já se viram.Viana do Castelo é uma cidade clara. Não esconde nada. Não há uma Viana secreta. Não há outra Viana do lado de lá. Em Viana do Castelo está tudo à vista. A luz mostra tudo o que há para ver. É uma cidade verde-branca. Verde-rio e verde-mar, mas branca. Em Agosto até o verde mais escuro, que se vê nas árvores antigas do Monte de Santa Luzia, parece tornar-se branco ao olhar. Até o granito das casas. Mais verdades.
No Norte a comida é melhor. O vinho é melhor. O serviço é melhor. Os preços são mais baixos. Não é difícil entrar ao calhas numa taberna, comer muito bem e pagar uma ninharia. Estas são as verdades do Norte de Portugal. Mas há uma verdade maior. É que só o Norte existe. O Sul não existe. As partes mais bonitas de Portugal, o Alentejo, os Açores, a Madeira, Lisboa, etc, existem sozinhas. O Sul é solto. Não se junta. Não se diz que se é do Sul como se diz que se é do Norte. No Norte dizem-se e orgulham-se de se dizer nortenhos. Quem é que se identifica como sulista? No Norte, as pessoas falam mais no Norte do que todos os portugueses juntos falam de Portugal inteiro.
Os nortenhos não falam do Norte como se o Norte fosse um segundo país.
Não haja enganos. Não falam do Norte para separá-lo de Portugal. Falam do Norte apenas para separá-lo do resto de Portugal. Para um nortenho, há o Norte e há o Resto. É a soma de um e de outro que constitui Portugal. Mas o Norte é onde Portugal começa. Depois do Norte, Portugal limita-se a continuar, a correr por ali abaixo. Deus nos livre, mas se se perdesse o resto do país e só ficasse o Norte, Portugal continuaria a existir. Como país inteiro. Pátria mesmo, por muito pequenina. No Norte.
Em contrapartida, sem o Norte, Portugal seria uma mera região da Europa. Mais ou menos peninsular, ou insular. É esta a verdade. Lisboa é bonita e estranha, mas é apenas uma cidade. O Alentejo é especial mas ibérico, a Madeira é encantadora mas inglesa e os Açores são um caso à parte.
Em qualquer caso, os lisboetas não falam nem no Centro nem no Sul - falam em Lisboa. Os alentejanos nem sequer falam do Algarve - falam do Alentejo. As ilhas falam em si mesmas e naquela entidade incompreensível a que chamam, qual hipermercado de mil misturadas, Continente.
No Norte, Portugal tira de si a sua ideia e ganha corpo. Está muito estragado, mas é um estragado português, semi-arrependido, como quem não quer a coisa. O Norte cheira a dinheiro e a alecrim. O asseio não é asséptico - cheira a cunhas, a conhecimentos e a arranjinho. Tem esse defeito e essa verdade. Em contrapartida, a conservação fantástica de (algum) Alentejo é impecável, porque os alentejanos são mais frios e conservadores (menos portugueses) nessas coisas.
O Norte é feminino. O Minho é uma menina. Tem a doçura agreste, a timidez insolente da mulher portuguesa. Como um brinco doirado que luz numa orelha pequenina, o Norte dá nas vistas sem se dar por isso.
As raparigas do Norte têm belezas perigosas, olhos verdes-impossíveis, daqueles em que os versos, desde o dia em que nascem, se põem a escrever-se sozinhos. Têm o ar de quem pertence a si própria. Andam de mãos nas ancas. Olham de frente. Pensam em tudo e dizem tudo o que pensam. Confiam, mas não dão confiança. Olho para as raparigas do meu país e acho-as bonitas e honradas, graciosas sem estarem para brincadeiras, bonitas sem serem belas, erguidas pelo nariz, seguras pelo queixo, aprumadas, mas sem vaidade. Acho-as verdadeiras. Acredito nelas. Gosto da vergonha delas, da maneira como coram quando se lhes fala e da maneira como podem puxar de um estalo ou de uma panela, quando se lhes falta ao respeito.
Gosto das pequeninas, com o cabelo puxado atrás das orelhas, e das velhas, de carrapito perfeito, que têm os olhos endurecidos de quem passou a vida a cuidar dos outros. Gosto dos brincos, dos sapatos, das saias. Gosto das burguesas, vestidas à maneira, de braço enlaçado nos homens. Fazem-me todas medo, na maneira calada como conduzem as cerimónias e os maridos, mas gosto delas. São mulheres que possuem; são mulheres que pertencem. As mulheres do Norte deveriam mandar neste país. Têm o ar de que sabem o que estão a fazer. Em Viana, durante as festas, são as senhoras em toda a parte. Numa procissão, numa barraca de feira, numa taberna, são elas que decidem silenciosamente. Trabalham três vezes mais que os homens e não lhes dão importância especial. Só descomposturas, e mimos, e carinhos.
O Norte é a nossa verdade. Ao princípio irritava-me que todos os nortenhos tivessem tanto orgulho no Norte, porque me parecia que o orgulho era aleatório. Gostavam do Norte só porque eram do Norte. Assim também eu. Ansiava por encontrar um nortenho que preferisse Coimbra ou o Algarve, da maneira que eu, lisboeta, prefiro o Norte. Afinal, Portugal é um caso muito sério e compete a cada português escolher, de cabeça fria e coração quente, os seus pedaços e pormenores.
Depois percebi. Os nortenhos, antes de nascer, já escolheram. Já nascem escolhidos. Não escolhem a terra onde nascem, seja Ponte de Lima ou Amarante, e apesar de as defenderem acerrimamente, põem acima dessas terras a terra maior que é o "O Norte". Defendem o "Norte" em Portugal como os Portugueses haviam de defender Portugal no mundo. Este sacrifício colectivo, em que cada um adia a sua pertença particular - o nome da sua terrinha - para poder pertencer a uma terra maior, é comovente. No Porto, dizem que as pessoas de Viana são melhores do que as do Porto. Em Viana, dizem que as festas de Viana não são tão autênticas como as de Ponte de Lima. Em Ponte de Lima dizem que a vila de Amarante ainda é mais bonita. O Norte não tem nome próprio. Se o tem não o diz. Quem sabe se é mais Minho ou Trás-os-Montes, se é litoral ou interior, português ou galego?
Parece vago. Mas não é. Basta olhar para aquelas caras e para aquelas casas, para as árvores, para os muros, ouvir aquelas vozes, sentir aquelas mãos em cima de nós, com a terra a tremer de tanto tambor e o céu em fogo, para adivinhar. Como nome do Norte é Portugal. Portugal, como nome de terra, como nome de nós todos, é um nome do Norte. Não é só o nome do Porto. É a maneira que têm de dizer "Portugal" e "Portugueses". No Norte dizem-no a toda a hora, com a maior das naturalidades. Sem complexos e sem atrioteirismos. Como se fosse só um nome. Como "Norte". Como se fosse assim que chamassem uns pelos outros. Porque é que não é assim que nos chamamos todos?
igreja de santa luzia - viana do castelo

HMB

“Metira” – Mentira
ex: “É Metira!”

“Ópois” – Depois
ex: Ópois niquei-me.”

“Inquiasa” – Em Casa
ex: “Bou estar inquiasa.”

“Iágua” – Água
ex: “chegainde-me a’ iágua.

Abais?” – Onde/Já vais?
ex: “Abaias?”

“Bagar” – Tempo / calma / paciência
ex:“Não tenho bagar pr’o futebol!”

Fraco” – Mau
ex: “Aquela gaja é fraca! É má como as cobras.”

Com nós” – Connosco
ex1 sing. “Ele vai com nós.”
v
ex2 plur."Ele vai com nozes."

Táiquetos” – Estejam quietos
ex: “Porra p’á canalha que não táqueta”

Esperem só mais um bocadinho de tempo, que eu já escrevo...

quarta-feira, 26 de abril de 2006

os diários de chalana

“... das coisas absolutamente irrepetíveis, há quem não queira fazer caso. Há quem não queira acreditar que o jeito nos pés, a magia que faz, ora rodopiar, ora entrelaçar uma bola, não depende do vigor com que nos possa crescer um bigode – por muito vigoroso que ele se revele – nem depende das imitações baratas e muito pouco rigorosas dos cortes de cabelo, arquitectados pelo saber estético do barbeiro da aldeia a que acresceu uma inspiração de pénalties e bagaço. Ás aproximações, às tentativas de repetir o irrepetível, eu costumo dizer que, antónio violante chalana só houve um e haverá apenas um, porque o que existiu para lá do cromo – a tridimensionalidade do empenho rebaixado na condução da bola, o pequeno salto depois do golo, a finta irrepetível que deixou o adversário pregado ou estendido – serve apenas os predestinado, e não os seus aspirantes, por muito bem que até possam ficar na fotografia.”


In “Diários de Chalana” volume XIX (reflexões)

Edição da Câmara Municipal do Barreiro

sábado, 22 de abril de 2006

Não, Não e Não

- Já te disse que não, Frederico. Não vou posar para ti... Nem que fosse para a capa d’”A Bola”.

Frederico Martins "[...]No final do mês, será o primeiro fotógrafo português a captar a capa da revista de moda Cosmopolitan."

Fotografia de Frederico Martins - menção honrosa
do prémio da revista “Visão”.

sexta-feira, 21 de abril de 2006

o que será feito de...

Lancia "da Martini"

os diários de chalana


“... o octávio sempre tivera semblante de sarrafa, embora, reconhecidamente, houvesse jeito naqueles pés. Contudo, não havia jogo em que não murmurasse e não se pusesse a balbuciar que sabia onde estivéramos e o que disséramos dele e do pedroto, do gomes e do rudolfo e dos outros todos. E depois dizia que também sabia em que esquinas de alfama e do bairro alto parávamos os carros, quanto pagávamos e quem metíamos lá dentro, as solteiras e as casadas. Andava o jogo nisto, que nos sabia os carros, as boites e os hotéis de lisboa para onde levávamos as putas e os engates e quem ainda do benfica, limpava seis riscos de cocaína. Uma vez, no estádio da luz, preguei-lhe semelhante bicanço e pisei-o nas partes baixas, que o homem lá teve que sair de maca. Eu, óbviamente não fui expulso, mas também já ninguém o podia aturar ... “.

In “Os Diários de Chalana” volume VIII (1978/1980).
Edição da Câmara Municipal do Barreiro - 2005

O "NOSSO" PAÍS, A "NOSSA" TERRA

Estando à espera de um registo predial que efectuei no dia 10 de Março último, na passada segunda-feira telefonei para a respectiva Conservatória do Registo Predial de Santa Maria da Feira, e informaram-me que estavam a fazer os registo de 8 de Março. Pensei para comigo, mais um dia ou dois.
Hoje, sexta-feira, o mesmo telefonema, exactamente a mesma resposta, estão a fazer os registos de 8 de Março.

Estando à espera de uma Licença de Utilização de um imóvel que requeri, dirigi-me na passada segunda-feira à nossa Câmara Municipal, ondo obtive a resposta de que o documento se encontrava pronto, apenas faltava o carimbo. Está nos Carimbos, foi a informação.
Hoje, sexta-feira, dirigi-me novamente à Câmara Municpal, e ouvi a mesma resposta, está nos Carimbos.

Estou farto.
Este "nosso" país (para não me acusarem de falta de patriostismo), não tem saída.

quinta-feira, 20 de abril de 2006

os diários de chalana


"... sim amigo, eu permanecerei um ícone, uma referência. Ainda que jogando, empenhando-nos de encarnado, correndo com os braços abertos, os punhos fechados, controlando a bola, sujeitando-nos ao risco de por amor ao clube, trilhar os tomates em calções curtos e cintados, não houve finta que inventássem, pítons de alumínio que chegassem para apagar ou esmorecer esta memória. É a composição estética da minha aparência, o empenho artístico que nela pus, que me garante ainda puder encher estádios, os salões da televisão no canal memória. Há bigodes que sempre duram e que o eterno não desfaz ....".


In "Os Diários de Chalana" volume V (1975/1976)
edição Câmara Municipal do Barreiro

NÃO É PARA LEVAR À LETRA!

Travessa de Cedofeita – Porto

quarta-feira, 19 de abril de 2006

30 e picos...


É de opinião que os adolescentes são criaturas insuportáveis que não se vestem, mascaram-se.
As Queimas do seu curso "é que eram...".
Desde há uns tempos para cá abandonou as rodadas de shots por um bom Muxagat Douro.
Há comidas que lhe "caem mal".
Já deu por si a pedir e desejar saúde nos brindes de Reveillon.
Já sabe aquilo que é verdadeiramente importante na vida.

terça-feira, 18 de abril de 2006

Câmara e Tolerância de Ponto Pascal

Ontem, enquanto passeava pelas ruas da nossa cidade, fui surpreendido por uma comunicação do Presidente da Câmara Municipal. Ao abrigo da alínea a) do nº 2, do art.º 68 da Lei 169/99, de 18 de Setembro – “Compete […] ao Presidente da Câmara Municipal decidir todos os assuntos relacionados com a gestão e direcção de recursos humanos afectos aos serviços municipais” – o Presidente decretava tolerância de ponto na segunda-feira, dia 17 de Abril, justificando com a tradição Pascal Feirense, onde em muitas freguesias a visita Pascal se realiza nesse dia.

“Que interessante!” – pensei.

Por um lado, eficiência e produtividade são palavras que apenas se aplicam aos privados. No funcionalismo público estas palavras são conceitos que nunca se aplicam. No mínimo dever-se-ia assegurar que o cidadão teria à sua disposição todos os serviços. No mínimo…

Por outro lado, num Estado laico os Feriados Religiosos apenas se justificam através da Religião dominante e da Tradição. Se vamos criar a tradição da tradição, não há dias do ano que cheguem para feriados.

segunda-feira, 17 de abril de 2006

AS MULHERES E OS SACOS

Será o saco o acompanhante preferido das mulheres? Com todo o respeito mas parece-me que, chegando a uma determinada idade, há objectivamente uma tendência para as mulheres se fazerem acompanhar por sacos. E falo de sacos que não são o resultado directo de uma compra, embora ostentem preferencialmente uma marca conhecida e cara, mas daqueles que servem de extensão à carteira. Obviamente, encontram-se excluídos desta realidade, os sacos das grandes superfícies! Esses, na melhor das hipóteses, servirão única e exclusivamente para o lixo, que é sempre um final digno destes últimos. Os outros - os que alegremente acompanham as senhoras - para além da valência principal, dão muito jeito para outras realidades próprias de um dia-a-dia, como são exemplo: o encosto vigoroso dos mesmos a quem rodeia, de forma a marcar o metro quadrado da portadora do mesmo; até à tradicional marcação, com os já citados, do local onde se vai sentar para almoçar/jantar, muito comum nos centros comerciais.

Uma realidade que, embora não se aplique à globalidade das senhoras, aplicar-se-á a uma grande maioria.

Sacos e mulheres, mulheres com sacos, sacos com mulheres, sacos e mais sacos, mulheres e mais mulheres com sacos e sacos… e… mulheres… sacos…

Pergunto: O que é que levam lá dentro?

sábado, 15 de abril de 2006

EXPRESSÕES

Que ficam bem ao povo: “Derivado a ”

…e ao pseudo-intelectual: “Transversal a”

quinta-feira, 13 de abril de 2006

o que será feito de...

tahiti douche

CARL CRAIG


Amanhã, no trintaeum.
Talvez seja pertinente referir que Carl Graig remistorou, entre outros, temas de Cesária Evora.