segunda-feira, 29 de maio de 2006

a bandeira


Não vou dar qualquer visibilidade à bandeira nacional antes ou durante o fussbal weltmeisterschaft na alemanha. Não sou de arremedos patrióticos, de picos de devoção aos símbolos nacionais e muito menos o seria, motivado pela circunstância de onze gajos andarem aos chutos numa bola. Não porque ignore a importância do evento, ou porque não ache que a Selecção Nacional de Futebol represente também parte daquilo que somos como portugueses. Pelo contrário. Agora, não darei visibilidade à bandeira nacional para depois, tudo passado, acabado o Weltmeisterschaft e ressacado do entusiasmo pelo mesmo país que é o da bandeira nacional que antes desfraldara, voltar ao discurso de sempre e dizer que ele, o país da minha bandeira, não vale a ponta de um corno e que o melhor é entregar tudo aos espanhóis. A Pátria não se esquece, como esquecidas ficaram muitas das bandeiras no euro 2004. Para isso, não as ponham [as bandeiras] cá fora!

Força Portugal! Força Brasil! Força Angola!

3 comentários:

naifa disse...

Sim, por favor, "não as ponham cá fora"!
Aliás, nem em guerra tal se justifica!

naifa disse...

Ó Fritz, desculpe lá, mas não pude resistir à chalaça popular oferecida de bandeja!

fritzthegermandog disse...

(...) Mas, para mim, o futebol é apenas isto: um grande jogo, um magnífico desporto e, por vezes, um deslumbrante espectáculo. E nada mais. Não é, nem será nunca, compensação para frustrações alheias à coisa em si, fonte de inspiração patriótica ou motivo de redenção nacional. Eu já adorava futebol quando o Estado Novo usava o futebol para nos distrair da miséria política e cultural em que vivíamos, tentando fazer-nos crer que, por termos aquela fabulosa equipa do Eusébio e seus pares de 66, só podíamos ser um grande país. Eu não irei, pois, pendurar a bandeira nacional na janela de minha casa ou do meu carro nem irei associar-me a imbecis manifestações de patrioteirismo ad hoc, a mando de um seleccionador brasileiro que se convenceu de que nos havia de transformar a todos em súbitos patriotas, à boleia da Selecção. E enjoo só de pensar que a cidadania patriótica vai dar pretexto e fornecer representação àquelas patéticas criaturas do jet-seis nacional para se vestirem com as cores da bandeira e jurarem o seu desvelo pela Selecção-pátria.

Tal como aprendi as ver as coisas, o patriotismo não é arvorar bandeirinhas nacionais às janelas quando do Europeu ou do Mundial. O patriotismo, para mim, é pagar impostos, ser útil à comunidade de alguma forma, servir o seu país, quando se tem ocasião para tal e sem esperar nada em troca. E os heróis nacionais não são os jogadores da Selecção, que nasceram com o talento para jogar futebol e, por isso, têm a honra e o privilégio (aliás, excelentemente pago, directa e indirectamente, através da publicidade e direitos de imagem), de representar Portugal num Mundial.Mais depressa vejo como heróis os amadores que se preparam anos a fio e às vezes a expensas suas, longe das multidões e do vedetismo, para representar Portugal nos Jogos Olímpicos. E perdoem-me a blasfémia mas, enquanto português, tenho infinitamente mais orgulho na Maria João Pires que no Cristiano Ronaldo e no António Damásio que no Luís Figo. Cada um é livre de definir a sua noção de pátria e de heróis nacionais. E esta é a minha. (...)

Miguel Sousa Tavares